segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O FILME QUE NUNCA VI

 
Depois de algumas décadas encontrei Hélio Salles, meu colega de escola primária. Ele se aproximou quando eu estava conversando com outro amigo, Natanael Tavares, que perguntou: “Helinho, conhece Marco Antonio?” Ele disparou que eu podia não me lembrar dele, mas que não se esquecia de um filme que eu tinha narrado para ele, o que foi quase como ter assistido, pois ele se recordava de detalhes do enredo. Embora já o tivesse reconhecido, me surpreendi com a sua memória e lembrei-me da cena. Nós no pátio do recreio do colégio das Mercês, com mais ou menos oito anos de idade e eu, entusiasmadíssimo, descrevendo (até o final, que nunca se deve contar) o filme Vikings, Os Conquistadores (The Vikings), estrelado por Kirk Douglas e Tony Curtis, que assisti com meu pai, no Cine Excelsior.

Não posso avaliar criticamente aquele filme. Digo apenas que era maravilhoso para um menino de sete ou oito anos e que, de alguma forma, a dupla Douglas/Curtis deve ter agradado aos conhecedores e participantes da indústria, pois pouco depois seu desempenho se repetiria em Spartacus, esse importante para a história do cinema. O que realmente chama a minha atenção é a ideia de como um filme não visto pode ficar tão indelevelmente marcado na memória de alguém. Talvez seja esse um aspecto interessante para um estudo de comportamento sobre o papel do cinema na formação dos nascidos no século XX, em fase anterior ao mundo digital, mas já impregnados pela cultura audiovisual.

Também a minha infância foi marcada por um filme não assistido. Nesse caso, trata-se de O Balanço das Horas (Rock Around The Clock) e ninguém me contou o filme, que até hoje não vi. O enredo deste “eu me lembro” é mais ou menos assim: Verão de 1958. Eu tinha sete anos e veraneávamos em Itaparica, num casarão que ficava bem defronte ao antigo cinema, na praça principal da cidadezinha. De todo o verão, a lembrança que me ficou foi o da noite em que exibiram o filme No Balanço das Horas. Queria assistir o filme que, diziam as revistas O Cruzeiro e Manchete, deixava a juventude doida por aquela música infernal, o rock and roll.

Meus pais, é claro, não permitiram que eu fosse, mas como o isolamento acústico era quase inexistente, podíamos ouvir as músicas. A minha irmã, um pouco mais velha, conta que pode sair com suas amigas e foram em direção ao cinema, que, de tão lotado, estava com as portas abertas. Ai as lembranças se confundem e eu desconfio que as acompanhei, chegando ao mar de pernas que tapavam a visão da tela. Devo então ter voltado para casa, ou talvez apenas tenha imaginado esta cena. O que me fica mesmo na lembrança é o eu menino, sentado na porta da casa ouvindo o filme, imaginando as cenas e, principalmente, ficando mansamente doido pela música. E ai começa a minha paixão pelo rock, pois já desde muito pequeno vinha me encantando pelas canções do rádio, sempre ligado em minha casa.

O rock, mais que a bossa-nova, marcou a minha infância e moldou a minha estética musical. O rock tornou-se paixão instintiva, enquanto a bossa, um amor por algo, em sua elegância inteligente, que só mais tarde, quando aprendi a tocar (mal) violão, pude compreender. Assim, posso também dizer que a minha total e imediata identificação com o Tropicalismo se deu graças ao velho cinema de Itaparica, tanto quanto ao rádio dos anos 50, aos primeiros discos dos Rolling Stones e ao Bob Dylan de Highway 61 Revisited, descobertos aos 15 anos. Identificação reafirmada ao assistir ao documentário Tropicália, de Marcelo Machado. Mais isto papo para outra lauda.

 
Publicado originalmente no blog Caderno de Cinema

Salvador, 06 de outubro de 2012

domingo, 7 de abril de 2013

Meninos, Eu Vi!


Escolhi esse artigo para ser um dos primeiros a publicar no portal porque, embora escrito muitos anos antes de A Transa do Amador da Música, complementa aquele na breve recuperação do Verbo Encantado, onde publiquei meus primeiros textos.

Meninos, eu vi! É assim que Sérgio Cabral abre o seu texto, no encarte do CD LUÍS GONZAGA AO VIVO – VOLTA PRA CURTIR. Eu também vi, no Rio de Janeiro, Teatro Tereza Raquel, o velho Lua em plena forma, no show dirigido por Jorge Salomão, com roteiro dele e de Capinam, cantando algumas das suas obras primas e contando os causos de sua vida, retratos do povo pobre do nordeste, para uma plateia maravilhada de jovens da zona sul do Rio. Na banda, entre outros, Dominguinhos e Renato Piau faziam do acompanhamento um auxílio luxuoso. Está tudo no CD.

1972. Aos 21 anos, 1m79, 60 quilos de pele, osso e cabelo, emoldurados por bata, boca de sino e sandália indiana, eu havia sido convidado, uns seis meses antes, por meu vizinho Álvaro Guimarães, para escrever no jornal “underground” O Verbo, que ele iria lançar com outros sócios. O Verbo durou 22 números, um verão, em que conheci como entrevistados Gilberto Gil, Caetano, Paulinho da Viola, Gal Costa e fiz textos sobre o melhor rock do tempo (Led Zeppelin, The Who, Traffic, Jethro Tull, Jimi Hendrix, Eric Clapton).
Foi quando o Verbo engasgou. Alvinho disse que ia tentar publicá-lo no Rio e eu, com tempo livre, fui para lá também. A viagem era barata, pois eu encarava um ônibus comum e ficava hospedado na casa de Paulo Corrêa, amigo de toda a vida. Lá entrevistei Pepeu, o desconhecido guitarrista dos Novos Baianos, naquela cobertura de Botafogo onde moravam eles todos, matéria que não saiu no Verbo porque ele já tinha acabado, embora a gente não soubesse, mas foi publicada em um dos poucos números da Rolling Stone brasileira, já que abordava um guitarrista brasileiro com um pique de rock. Anos depois, encontrei Pepeu e Baby na Praia dos Artistas (Boca do Rio) e ele me disse que o artigo tinha sido o primeiro em que ele era o destaque, e que tinha sido bom para a sua carreira.

E, como já disse, meninos, eu vi Luís Gonzaga. Por isso, lembrando 1972, ouvi esse que é o único CD ao vivo de Gonzaga com lágrimas escorrendo pelo rosto, emocionado. Mas não só porque eu vi, não só porque vivi 72 é que as lágrimas se explicam. Elas rolaram porque eu estava ouvindo um mestre do ser brasileiro em toda sua inteireza. Em toda a dimensão majestática de sua grandeza. Porque eu ouvia o Rei do Baião. Ouçam também.

Publicado originalmente no jornal Soterópolis

Salvador, Maio de 2001

terça-feira, 2 de abril de 2013

Os pais e a mãe do Prêmio Braskem de Teatro


 
A entrega de troféus do Prêmio Braskem de Teatro, no dia 03 de abril, conclui a vigésima edição do projeto lançado em 1992 e iniciado no ano seguinte. Ainda hoje reconheço traços do meu DNA no desenho do Prêmio, que projetei com o meu sócio na Usina Cultural Produções, Jorge Albuquerque, a quem conheci quando ele era um dos produtores do Troféu Caymmi, e eu consultor contratado pelo Assessor de Comunicação da Copene, o jornalista José Cerqueira, para acompanhar e implantar estratégias que potencializassem o reconhecimento do Caymmi e o associassem, positivamente, à patrocinadora.
Analisando a evolução do campo do teatro baiano, que conquistava plateias com espetáculos como A Bofetada, Oficina Condensada e Recital da Novíssima Poesia Baiana, elaborei a proposta de uma premiação anual para o teatro, que teria poucas categorias, de modo a ressaltar o valor do prêmio, e cuja cerimônia de entrega dos troféus já seria uma instância de reconhecimento do teatro baiano, apresentada a Carlos Augusto Mascarenhas, Diretor de Comunicação do Comitê de Fomento Industrial de Camaçari – Cofic, que a aprovou. Sua decisão foi influenciada pela bem-sucedida iniciativa da Copene de relacionar-se com a comunidade através do patrocínio à cultura, e por José Cerqueira, principal interlocutor do projeto. Foram eles, portanto, os primeiros pais adotivos do projeto.
Decisão tomada, iniciamos providências para lançar a premiação. A Engenho Novo foi escolhida para criar a identidade visual e publicitária do Troféu. Assim, mais três pais se incorporam: Os publicitários Fernando Passos e Carlos Sarno e o artista plástico Tati Moreno, que deu vida à estatueta. Para o evento de lançamento, convidamos Aninha Franco para conceber a homenagem à cena baiana, o que resultou em As Parcas, dirigida por Paulo Dourado, com as atrizes Regina Dourado, Rita Assemany e Yumara Rodrigues, e um modelo que, com grandes variações, há 21 anos surpreende a plateia, conduzido pelos principais diretores, autores, atores e atrizes da nossa cidade.
Em 1993, a Diretoria de Comunicação do Cofic passou para Érico Oliveira, que adotou a premiação em toda a sua fase “Bahia Aplaude”. Nesse período, deixei a sociedade na Usina Cultural, embora me mantendo como interlocutor e apoiador de Jorge Albuquerque, que assumiu Usina e TBA até o encerramento da empresa. O projeto passou então à Caderno 2 Produções. Dalmo Perez e Rosângela, seus proprietários, contrataram Jorge como produtor executivo, mantendo-o à frente da premiação. Em 1998, o prêmio passou à Copene, renomeado Prêmio Copene de Teatro. Em 2002, fusão de empresas do Pólo Petroquímico, e entra em cena o atual Prêmio Braskem de Teatro.
Ao longo desses 21 anos de existência, o Prêmio foi cuidado por uma lista imensa de “pais adotivos”, que contribuíram para o sucesso do projeto. Foram comissões julgadoras dedicadas, autores e diretores dos eventos de entrega de prêmios, seus elencos, cenotécnicos diversos, a dedicada equipe da Caderno 2, encabeçada pelos já citados diretores Dalmo Peres e Rosana, representantes dos patrocinadores, jornalistas e publicitários. Só uma coisa não mudou: O trabalho dedicado do produtor Jorge Albuquerque, mãe zelosa, que, dos bastidores, gestou e deu a luz ao Bahia Aplaude, com alto padrão de qualidade, tornando-o objeto de desejo da classe teatral baiana. Assim foi no seu lançamento e continua sendo até hoje. Mãe só tem uma. Parabéns, Jorge, pelos 20 anos do Prêmio Braskem de Teatro.

Salvador, 02 de abril de 2013

APRESENTAÇÃO

Terças Musicais do Teatro Castro Alves

Tenho escrito sobre música desde que comecei a vida profissional, começando pelo Verbo Encantado e seguindo por jornais, A Tarde, Tribuna da Bahia e Diário de Notícias, e mais recentemente, por alguns portais e blogs. Além disso, ao par de trabalhar nas áreas de comunicação e promoções da Bahiatursa, Copene, Braskem e da Universidade Federal da Bahia, inventei-me compositor, na década de 70 e participei de festivais e shows individuais ou coletivos, compus para várias peças teatrais e para um filme nunca lançado, vivendo intensamente a vida cultural da cidade e Salvador, daquela época. Tive também composições, em parceria com Edil Pacheco, gravadas pelo próprio e pelo sambista carioca já falecido, Roberto Ribeiro.
Ensaios para o show ROSA
Recentemente, os textos que produzi deixaram a pretensão crítica e o foco exclusivo na música, tomando um vies mais memorial. Apareceu a vontade de contar as histórias que vivi e recuperar os artigos que escrevi, trazendo-os a esse blog. Quando o fizer, procurarei situá-los no tempo e na circunstância em que foram escritos.
A musica é o fio condutor dessas lembranças. A viagem está começando.

Salvador, 02 de abril de 2013

A Transa de um amador da música


O post de Aninha Franco no facebook, com matéria da Folha de São Paulo que anunciava o lançamento do disco (em LP e CD) Transa, de Caetano Veloso, me bateu como uma madeleine em boca de Proust. A matéria descrevia uma edição comemorativa dos seus 40 anos, remasterizada e com a capa original, o “discobjeto”, concebido na redação do Verbo Encantado. Recordei-me vividamente da visita de Caetano à casinha de avenida, na Rua Visconde do Mauá, onde o jornal era editado, dando começo àquela transa, que depois virou discobjeto e programa de show no Rio de Janeiro.

Caetano desceu a escada da avenida até a porta do Verbo, acompanhado por Dedé e amigos, em um fim de tarde de fevereiro. Foi recebido por Alvinho Guimarães, mas parou na porta e olhou sobre o muro para o pôr do sol da Baía de Todos os Santos. Ricardo Lisboa e Deca já o cercavam para fotografá-lo e ele falou para os dois: “Se virem aí”. E permaneceu uns bons minutos de olho na baía. Que vista o Verbo tinha! Essas fotos foram publicadas em página dupla da edição seguinte do jornal, e compuseram a parte interna do discobjeto Transa. As das partes externas do triangulo foram feitas por Juca (Joaquim) Gonçalves no show do Teatro Castro Alves.
A viagem da memória foi retomada dias depois, quando comprei o CD Transa, na Pérola Negra, montei o pequeno discobjeto e voltei para casa ouvindo-o. Como a Salvador de João Henrique será lembrada como o período em que a cidade parou, no tempo e no engarrafamento, até chegar, o CD tocou duas vezes, reconfirmando as qualidades musicais que o fizeram, em minha opinião, ao lado de Joia e Qualquer Coisa, um dos melhores da sua discografia e da música brasileira dos últimos quarenta anos. O discobjeto também foi dignamente refeito, a ficha técnica corrigida e a remasterização, excelente, torna audíveis detalhes dos arranjos, mantendo a dinâmica dos mesmos.

Quarenta anos, completados em outubro de 2011, é também o tempo em que comecei a deixar de ser um projeto de jurista e passei a viver, fundamentalmente, da habilidade em colocar no papel ideias, lembranças, sensações, impressões e emoções. Ou na tela do computador, nos dias de hoje. Aos 20 anos, terceiranista de Direito na UFBA, era vizinho da família de Álvaro Guimarães, àquela altura diretor teatral vivendo no eixo Rio / Bahia. A diferença de idade entre nós, de uns oito a dez anos, enorme na adolescência, começou a se estreitar quando Alvinho veio produzir, uns dois anos antes, o filme Caveira My Friend e eu emprestei a ele alguns discos de rock, meus e de Paulo Corrêa, e que (acho) foram usados na trilha do filme, que nunca vi, e na da montagem de Macbeth, dirigida pelo argentino Enrico Arimã, também frequentador da casa de Alvinho.

Alvinho mudou a minha vida (do que só me dei conta algum tempo depois) quando me convidou para escrever sobre música para o jornal “underground” o Verbo Encantado, que estava sendo criado por ele e dois outros sócios, Armindo Bião e Ciomara, de quem não lembro o sobrenome. Acontece que Bião também convidou um colega de faculdade, José Cerqueira Filho, para o mesmo papel e, no primeiro número tivemos uma página com artigos bem diferentes. O que seria um motivo para conflito, com a disponibilidade dos jovens tornou-se rapidamente uma parceria e, do segundo número em diante, já decidíamos a pauta e produzíamos textos em dupla. E assim, entre outras, fizemos para o Verbo entrevistas com Gil, Gal, Paulinho da Viola, matérias sobre o Traffic, The Doors, Roberto Carlos e a música que era tocada nas casas de prostituição da Ladeira da Montanha e arredores. Além de Cerqueira, no Verbo conheci novos amigos, queridos até hoje, alguns presentes, outros na memória, como Luciano Diniz, Carlos Ribas, Mário Gadelha e Marquinho Rebu.

E quando o Verbo terminou, segui escrevendo para o Diário de Notícias, A Tarde, Rolling Stone, Revista Viver Bahia, Soterópolis e para o portal Caramurê, além de ter composto canções e letras para canções de amigos, elaborado projetos culturais, entre os quais o do Prêmio Braskem de Teatro, já com vinte anos de existência e, aparentemente, com fôlego para mais vinte. E continuo, sem interrupção, ouvindo toda música que me passa pelos ouvidos, buscando reouvir o que me agrada e descobrir o que desconfio que possa me agradar. Pois a música me traz tão grande prazer que me tornei um seu eterno apaixonado. Um amador da música.

Publicado originalmente do portal CARAMURÊ
Salvador, junho de 2012