
Não posso avaliar criticamente aquele filme. Digo apenas que
era maravilhoso para um menino de sete ou oito anos e que, de alguma forma, a
dupla Douglas/Curtis deve ter agradado aos conhecedores e participantes da
indústria, pois pouco depois seu desempenho se repetiria em Spartacus, esse importante para a
história do cinema. O que realmente chama a minha atenção é a ideia de como um
filme não visto pode ficar tão indelevelmente marcado na memória de alguém.
Talvez seja esse um aspecto interessante para um estudo de comportamento sobre
o papel do cinema na formação dos nascidos no século XX, em fase anterior ao
mundo digital, mas já impregnados pela cultura audiovisual.
Também a minha infância foi marcada por um filme não
assistido. Nesse caso, trata-se de O
Balanço das Horas (Rock Around The
Clock) e ninguém me contou o filme, que até hoje não vi. O enredo deste “eu
me lembro” é mais ou menos assim: Verão de 1958. Eu tinha sete anos e
veraneávamos em Itaparica, num casarão que ficava bem defronte ao antigo
cinema, na praça principal da cidadezinha. De todo o verão, a lembrança que me
ficou foi o da noite em que exibiram o filme No Balanço das Horas. Queria assistir o filme que, diziam as
revistas O Cruzeiro e Manchete, deixava a juventude doida por aquela música
infernal, o rock and roll.
Meus pais, é claro, não permitiram que eu fosse, mas como o
isolamento acústico era quase inexistente, podíamos ouvir as músicas. A minha
irmã, um pouco mais velha, conta que pode sair com suas amigas e foram em
direção ao cinema, que, de tão lotado, estava com as portas abertas. Ai as
lembranças se confundem e eu desconfio que as acompanhei, chegando ao mar de
pernas que tapavam a visão da tela. Devo então ter voltado para casa, ou talvez
apenas tenha imaginado esta cena. O que me fica mesmo na lembrança é o eu
menino, sentado na porta da casa ouvindo o filme, imaginando as cenas e,
principalmente, ficando mansamente doido pela música. E ai começa a minha
paixão pelo rock, pois já desde muito pequeno vinha me encantando pelas canções
do rádio, sempre ligado em minha casa.
O rock, mais que a bossa-nova, marcou a minha infância e
moldou a minha estética musical. O rock tornou-se paixão instintiva, enquanto a
bossa, um amor por algo, em sua elegância inteligente, que só mais tarde,
quando aprendi a tocar (mal) violão, pude compreender. Assim, posso também
dizer que a minha total e imediata identificação com o Tropicalismo se deu
graças ao velho cinema de Itaparica, tanto quanto ao rádio dos anos 50, aos
primeiros discos dos Rolling Stones e ao Bob Dylan de Highway 61 Revisited,
descobertos aos 15 anos. Identificação reafirmada ao assistir ao documentário Tropicália, de Marcelo Machado. Mais
isto papo para outra lauda.Publicado originalmente no blog Caderno de Cinema
Salvador, 06 de outubro de 2012











