Escolhi
esse artigo para ser um dos primeiros a publicar no portal porque, embora
escrito muitos anos antes de A Transa do Amador da Música, complementa aquele
na breve recuperação do Verbo Encantado, onde publiquei meus primeiros textos.
Meninos, eu vi! É assim que Sérgio Cabral abre o seu
texto, no encarte do CD LUÍS GONZAGA AO VIVO – VOLTA PRA CURTIR. Eu também vi,
no Rio de Janeiro, Teatro Tereza Raquel, o velho Lua em plena forma, no show
dirigido por Jorge Salomão, com roteiro dele e de Capinam, cantando algumas das
suas obras primas e contando os causos de sua vida, retratos do povo pobre do
nordeste, para uma plateia maravilhada de jovens da zona sul do Rio. Na banda,
entre outros, Dominguinhos e Renato Piau faziam do acompanhamento um auxílio
luxuoso. Está tudo no CD.
1972. Aos 21 anos, 1m79, 60 quilos de pele, osso e
cabelo, emoldurados por bata, boca de sino e sandália indiana, eu havia sido
convidado, uns seis meses antes, por meu vizinho Álvaro Guimarães, para
escrever no jornal “underground” O Verbo, que ele iria lançar com outros
sócios. O Verbo durou 22 números, um verão, em que conheci como entrevistados
Gilberto Gil, Caetano, Paulinho da Viola, Gal Costa e fiz textos sobre o melhor
rock do tempo (Led Zeppelin, The Who, Traffic, Jethro Tull, Jimi Hendrix, Eric
Clapton).
Foi quando o Verbo engasgou. Alvinho disse que ia
tentar publicá-lo no Rio e eu, com tempo livre, fui para lá também. A viagem
era barata, pois eu encarava um ônibus comum e ficava hospedado na casa de
Paulo Corrêa, amigo de toda a vida. Lá entrevistei Pepeu, o desconhecido
guitarrista dos Novos Baianos, naquela cobertura de Botafogo onde moravam eles
todos, matéria que não saiu no Verbo porque ele já tinha acabado, embora a
gente não soubesse, mas foi publicada em um dos poucos números da Rolling Stone
brasileira, já que abordava um guitarrista brasileiro com um pique de rock.
Anos depois, encontrei Pepeu e Baby na Praia dos Artistas (Boca do Rio) e ele
me disse que o artigo tinha sido o primeiro em que ele era o destaque, e que
tinha sido bom para a sua carreira.
E, como já disse, meninos, eu vi Luís Gonzaga. Por
isso, lembrando 1972, ouvi esse que é o único CD ao vivo de Gonzaga com
lágrimas escorrendo pelo rosto, emocionado. Mas não só porque eu vi, não só
porque vivi 72 é que as lágrimas se explicam. Elas rolaram porque eu estava
ouvindo um mestre do ser brasileiro em toda sua inteireza. Em toda a dimensão
majestática de sua grandeza. Porque eu ouvia o Rei do Baião. Ouçam também.
Publicado originalmente no jornal Soterópolis
Salvador, Maio de 2001
Lágrimas são cristais liquefeitos, pedras, portanto, e pedras que rolam, você sabe, são só rock'n'roll...
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