domingo, 7 de abril de 2013

Meninos, Eu Vi!


Escolhi esse artigo para ser um dos primeiros a publicar no portal porque, embora escrito muitos anos antes de A Transa do Amador da Música, complementa aquele na breve recuperação do Verbo Encantado, onde publiquei meus primeiros textos.

Meninos, eu vi! É assim que Sérgio Cabral abre o seu texto, no encarte do CD LUÍS GONZAGA AO VIVO – VOLTA PRA CURTIR. Eu também vi, no Rio de Janeiro, Teatro Tereza Raquel, o velho Lua em plena forma, no show dirigido por Jorge Salomão, com roteiro dele e de Capinam, cantando algumas das suas obras primas e contando os causos de sua vida, retratos do povo pobre do nordeste, para uma plateia maravilhada de jovens da zona sul do Rio. Na banda, entre outros, Dominguinhos e Renato Piau faziam do acompanhamento um auxílio luxuoso. Está tudo no CD.

1972. Aos 21 anos, 1m79, 60 quilos de pele, osso e cabelo, emoldurados por bata, boca de sino e sandália indiana, eu havia sido convidado, uns seis meses antes, por meu vizinho Álvaro Guimarães, para escrever no jornal “underground” O Verbo, que ele iria lançar com outros sócios. O Verbo durou 22 números, um verão, em que conheci como entrevistados Gilberto Gil, Caetano, Paulinho da Viola, Gal Costa e fiz textos sobre o melhor rock do tempo (Led Zeppelin, The Who, Traffic, Jethro Tull, Jimi Hendrix, Eric Clapton).
Foi quando o Verbo engasgou. Alvinho disse que ia tentar publicá-lo no Rio e eu, com tempo livre, fui para lá também. A viagem era barata, pois eu encarava um ônibus comum e ficava hospedado na casa de Paulo Corrêa, amigo de toda a vida. Lá entrevistei Pepeu, o desconhecido guitarrista dos Novos Baianos, naquela cobertura de Botafogo onde moravam eles todos, matéria que não saiu no Verbo porque ele já tinha acabado, embora a gente não soubesse, mas foi publicada em um dos poucos números da Rolling Stone brasileira, já que abordava um guitarrista brasileiro com um pique de rock. Anos depois, encontrei Pepeu e Baby na Praia dos Artistas (Boca do Rio) e ele me disse que o artigo tinha sido o primeiro em que ele era o destaque, e que tinha sido bom para a sua carreira.

E, como já disse, meninos, eu vi Luís Gonzaga. Por isso, lembrando 1972, ouvi esse que é o único CD ao vivo de Gonzaga com lágrimas escorrendo pelo rosto, emocionado. Mas não só porque eu vi, não só porque vivi 72 é que as lágrimas se explicam. Elas rolaram porque eu estava ouvindo um mestre do ser brasileiro em toda sua inteireza. Em toda a dimensão majestática de sua grandeza. Porque eu ouvia o Rei do Baião. Ouçam também.

Publicado originalmente no jornal Soterópolis

Salvador, Maio de 2001

Um comentário:

  1. Lágrimas são cristais liquefeitos, pedras, portanto, e pedras que rolam, você sabe, são só rock'n'roll...

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