terça-feira, 2 de abril de 2013

A Transa de um amador da música


O post de Aninha Franco no facebook, com matéria da Folha de São Paulo que anunciava o lançamento do disco (em LP e CD) Transa, de Caetano Veloso, me bateu como uma madeleine em boca de Proust. A matéria descrevia uma edição comemorativa dos seus 40 anos, remasterizada e com a capa original, o “discobjeto”, concebido na redação do Verbo Encantado. Recordei-me vividamente da visita de Caetano à casinha de avenida, na Rua Visconde do Mauá, onde o jornal era editado, dando começo àquela transa, que depois virou discobjeto e programa de show no Rio de Janeiro.

Caetano desceu a escada da avenida até a porta do Verbo, acompanhado por Dedé e amigos, em um fim de tarde de fevereiro. Foi recebido por Alvinho Guimarães, mas parou na porta e olhou sobre o muro para o pôr do sol da Baía de Todos os Santos. Ricardo Lisboa e Deca já o cercavam para fotografá-lo e ele falou para os dois: “Se virem aí”. E permaneceu uns bons minutos de olho na baía. Que vista o Verbo tinha! Essas fotos foram publicadas em página dupla da edição seguinte do jornal, e compuseram a parte interna do discobjeto Transa. As das partes externas do triangulo foram feitas por Juca (Joaquim) Gonçalves no show do Teatro Castro Alves.
A viagem da memória foi retomada dias depois, quando comprei o CD Transa, na Pérola Negra, montei o pequeno discobjeto e voltei para casa ouvindo-o. Como a Salvador de João Henrique será lembrada como o período em que a cidade parou, no tempo e no engarrafamento, até chegar, o CD tocou duas vezes, reconfirmando as qualidades musicais que o fizeram, em minha opinião, ao lado de Joia e Qualquer Coisa, um dos melhores da sua discografia e da música brasileira dos últimos quarenta anos. O discobjeto também foi dignamente refeito, a ficha técnica corrigida e a remasterização, excelente, torna audíveis detalhes dos arranjos, mantendo a dinâmica dos mesmos.

Quarenta anos, completados em outubro de 2011, é também o tempo em que comecei a deixar de ser um projeto de jurista e passei a viver, fundamentalmente, da habilidade em colocar no papel ideias, lembranças, sensações, impressões e emoções. Ou na tela do computador, nos dias de hoje. Aos 20 anos, terceiranista de Direito na UFBA, era vizinho da família de Álvaro Guimarães, àquela altura diretor teatral vivendo no eixo Rio / Bahia. A diferença de idade entre nós, de uns oito a dez anos, enorme na adolescência, começou a se estreitar quando Alvinho veio produzir, uns dois anos antes, o filme Caveira My Friend e eu emprestei a ele alguns discos de rock, meus e de Paulo Corrêa, e que (acho) foram usados na trilha do filme, que nunca vi, e na da montagem de Macbeth, dirigida pelo argentino Enrico Arimã, também frequentador da casa de Alvinho.

Alvinho mudou a minha vida (do que só me dei conta algum tempo depois) quando me convidou para escrever sobre música para o jornal “underground” o Verbo Encantado, que estava sendo criado por ele e dois outros sócios, Armindo Bião e Ciomara, de quem não lembro o sobrenome. Acontece que Bião também convidou um colega de faculdade, José Cerqueira Filho, para o mesmo papel e, no primeiro número tivemos uma página com artigos bem diferentes. O que seria um motivo para conflito, com a disponibilidade dos jovens tornou-se rapidamente uma parceria e, do segundo número em diante, já decidíamos a pauta e produzíamos textos em dupla. E assim, entre outras, fizemos para o Verbo entrevistas com Gil, Gal, Paulinho da Viola, matérias sobre o Traffic, The Doors, Roberto Carlos e a música que era tocada nas casas de prostituição da Ladeira da Montanha e arredores. Além de Cerqueira, no Verbo conheci novos amigos, queridos até hoje, alguns presentes, outros na memória, como Luciano Diniz, Carlos Ribas, Mário Gadelha e Marquinho Rebu.

E quando o Verbo terminou, segui escrevendo para o Diário de Notícias, A Tarde, Rolling Stone, Revista Viver Bahia, Soterópolis e para o portal Caramurê, além de ter composto canções e letras para canções de amigos, elaborado projetos culturais, entre os quais o do Prêmio Braskem de Teatro, já com vinte anos de existência e, aparentemente, com fôlego para mais vinte. E continuo, sem interrupção, ouvindo toda música que me passa pelos ouvidos, buscando reouvir o que me agrada e descobrir o que desconfio que possa me agradar. Pois a música me traz tão grande prazer que me tornei um seu eterno apaixonado. Um amador da música.

Publicado originalmente do portal CARAMURÊ
Salvador, junho de 2012

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