O post de Aninha Franco no
facebook, com matéria da Folha de São Paulo que anunciava o lançamento do disco
(em LP e CD) Transa, de Caetano Veloso, me bateu como uma madeleine em boca de
Proust. A matéria descrevia uma edição comemorativa dos seus 40 anos, remasterizada
e com a capa original, o “discobjeto”, concebido na redação do Verbo Encantado.
Recordei-me vividamente da visita de Caetano à casinha de avenida, na Rua
Visconde do Mauá, onde o jornal era editado, dando começo àquela transa, que
depois virou discobjeto e programa de show no Rio de Janeiro.
Caetano desceu a escada da
avenida até a porta do Verbo, acompanhado por Dedé e amigos, em um fim de tarde
de fevereiro. Foi recebido por Alvinho Guimarães, mas parou na porta e olhou
sobre o muro para o pôr do sol da Baía de Todos os Santos. Ricardo Lisboa e
Deca já o cercavam para fotografá-lo e ele falou para os dois: “Se virem aí”. E
permaneceu uns bons minutos de olho na baía. Que vista o Verbo tinha! Essas
fotos foram publicadas em página dupla da edição seguinte do jornal, e
compuseram a parte interna do discobjeto Transa. As das partes externas do
triangulo foram feitas por Juca (Joaquim) Gonçalves no show do Teatro Castro
Alves.
A viagem da memória foi
retomada dias depois, quando comprei o CD Transa, na Pérola Negra, montei o
pequeno discobjeto e voltei para casa ouvindo-o. Como a Salvador de João
Henrique será lembrada como o período em que a cidade parou, no tempo e no
engarrafamento, até chegar, o CD tocou duas vezes, reconfirmando as qualidades
musicais que o fizeram, em minha opinião, ao lado de Joia e Qualquer Coisa, um
dos melhores da sua discografia e da música brasileira dos últimos quarenta
anos. O discobjeto também foi dignamente refeito, a ficha técnica corrigida e a
remasterização, excelente, torna audíveis detalhes dos arranjos, mantendo a dinâmica dos mesmos.
Quarenta anos, completados em
outubro de 2011, é também o tempo em que comecei a deixar de ser um projeto de jurista
e passei a viver, fundamentalmente, da habilidade em colocar no papel ideias,
lembranças, sensações, impressões e emoções. Ou na tela do computador, nos dias
de hoje. Aos 20 anos, terceiranista de Direito na UFBA, era vizinho da família
de Álvaro Guimarães, àquela altura diretor teatral vivendo no eixo Rio / Bahia.
A diferença de idade entre nós, de uns oito a dez anos, enorme na adolescência,
começou a se estreitar quando Alvinho veio produzir, uns dois anos antes, o
filme Caveira My Friend e eu emprestei a ele alguns discos de rock, meus e de
Paulo Corrêa, e que (acho) foram usados na trilha do filme, que nunca vi, e na
da montagem de Macbeth, dirigida pelo argentino Enrico Arimã, também frequentador
da casa de Alvinho.
Alvinho mudou a minha vida (do
que só me dei conta algum tempo depois) quando me convidou para escrever sobre
música para o jornal “underground” o Verbo Encantado, que estava sendo criado
por ele e dois outros sócios, Armindo Bião e Ciomara, de quem não lembro o
sobrenome. Acontece que Bião também convidou um colega de faculdade, José
Cerqueira Filho, para o mesmo papel e, no primeiro número tivemos uma página
com artigos bem diferentes. O que seria um motivo para conflito, com a
disponibilidade dos jovens tornou-se rapidamente uma parceria e, do segundo
número em diante, já decidíamos a pauta e produzíamos textos em dupla. E assim,
entre outras, fizemos para o Verbo entrevistas com Gil, Gal, Paulinho da Viola,
matérias sobre o Traffic, The Doors, Roberto Carlos e a música que era tocada
nas casas de prostituição da Ladeira da Montanha e arredores. Além de
Cerqueira, no Verbo conheci novos amigos, queridos até hoje, alguns presentes,
outros na memória, como Luciano Diniz, Carlos Ribas, Mário Gadelha e Marquinho
Rebu.
E quando o Verbo terminou,
segui escrevendo para o Diário de Notícias, A Tarde, Rolling Stone, Revista
Viver Bahia, Soterópolis e para o portal Caramurê, além de ter
composto canções e letras para canções de amigos, elaborado projetos culturais,
entre os quais o do Prêmio Braskem de Teatro, já com vinte anos de existência e,
aparentemente, com fôlego para mais vinte. E continuo, sem interrupção, ouvindo
toda música que me passa pelos ouvidos, buscando reouvir o que me agrada e
descobrir o que desconfio que possa me agradar. Pois a música me traz tão
grande prazer que me tornei um seu eterno apaixonado. Um amador da música.
Publicado originalmente do portal CARAMURÊ
Salvador, junho de 2012
Publicado originalmente do portal CARAMURÊ
Salvador, junho de 2012
Nenhum comentário:
Postar um comentário